A vista era linda. Compensava a subida até ali, mas não o que ela faria
em seguida. Olhou para baixo pelo parapeito. Fora hilário: uma mulher de
vestido branco, sentada no parapeito da janela de uma torre para turistas, com
os cabelos molhados secando à pureza do vento, com o olhar perdido entre a
lucidez e a loucura. Ela riu alto com esse pensamento, aproveitou o momento
daquela rápida "felicidade" e se jogou. Ouviu alguns gritos de
desespero de outras pessoas que se lembrariam desse dia como o dia que viram o
sangue de sua própria e vulnerável espécie. O chão estava cada vez mais
próximo. Sentiu suas vísceras dobrarem. Vomitou antes de tocar o chão. Seus
ossos - que a sustentaram toda a vida, todos os tormentos, todas as injúrias, todos os
seus caminhos - tornaram-se gravetos na mão de uma criança. A criança divertia-se,
quebrando-os em mínimos pedaços. Sentindo o sangue na garganta. Olhou para o
céu. Viu o último pássaro, a última nuvem. Sentiu o vento pela última vez.
Fechou os olhos. Continuou na escuridão, até que ela resolveu levá-la.

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