
Levantou. Mirou. E matou. Pronto. Tudo bem, ou
não. A presa estava caída, sem vida. Quando algo chamou a atenção do Arqueiro.
Algo que não se vê em cadáveres normais ‘Se é que aquela Criatura podia ser
considerada normal’. Soltou seu arco e suas flechas. Algo que não devia ter
feito. Dizia sua consciência, pegou um galho e calmamente ergueu aquela coisa.
Notou uma pequena falha na pelagem da Criatura, como se a flecha disparada por
ele a tivesse queimado. Arrancou a flecha do couro chamuscado. Sentira um pouco de sangue escorrer-lhe pela
mão, alguns segundos depois por onde o sangue passara queimou ‘Fogo!’. Foi o
bastante para que largasse a flecha e a jogasse longe. Nos segundos que vieram
a seguir sentiu o maior pavor de sua vida. A queimadura se alastrá-la por todo
o corpo da Criatura, que agora jazia em cinzas e ossos. Afastou-se brutalmente
dos restos mortais. Suspirou. Antes que acalmasse seus pensamentos, subiu ao
céu uma fumaça esverdeada ‘O que? Veneno?’. Seu pensamento foi interrompido
pelo vulto da Criatura pulando em cima dele, pulando, mordendo e arranhando.
Seu instinto reagiu a tempo, pegou sua adaga e desferiu um golpe, de susto e
raiva, no pescoço do Animal. A Criatura caiu, junto com seu assassino. Olhou em
volta “Nada” e para onde matara o primeiro “Nada”. “Espere! Nada, como...
nada?” Os restos mortais da Criatura não estavam mais lá, só havia as cinzas, que
agora tinham um tom esverdeado. Sua adaga aqueceu. Aqueceu e queimou sua mão.
Soltando pragas a deixou cair, ao tocar o chão o metal produziu uma pequena
fumaça. Virou-se para o segundo cadáver e esperou. Esperou e observou. Notou a
fumaça verde exalando do corpo. Pegou seu arco e sua adaga, que ainda estava
quente. Posicionou-se. Preparou a flecha e observou à fumaça subindo ao céu.
Recuperou a calma, mas perdeu-a nos instantes seguintes. Onde a facada fora
desferida ‘A queimadura como o outro!’, alastrou-se e o cadáver se transformou
em cinzas e ossos ‘Como o outro?’. Pensara ter visto o esqueleto da Criatura se
mexer “Você só está com medo, aquilo são só ossos...”. O esqueleto se moveu
novamente. E dele começou a se formar tecidos, órgãos, couro. A criatura se
levantou, após se formar das cinzas, com o olhar assustado. Virou e encarou o
Arqueiro. O olhar lhe causou arrepio intenso. Os olhos, antes verdes, em
segundos, tornaram-se totalmente negros. Durante o contato visual o Arqueiro
pode analisar melhor as feições Daquilo: Não era maior que um javali selvagem,
seu pelo liso e manchado de preto, nas extremidades mantinha um tom vermelho,
os dentes caninos superiores a mostra, não maiores que a ponta de uma de suas
flechas, mas pareciam tão afiadas quanto. O ar em sua volta, geralmente fresco
naquele bosque, cheirava a morte, putrefação e queimado. No primeiro movimento da
Criatura ele disparou uma flecha. Errou. Não devia ter disparado. A Criatura
investiu sobre ele e arrancou, com uma patada, o arco da mão do Arqueiro. Que
instantaneamente puxou a adaga e desferiu golpes em todas as direções, a
Criatura arranhava e mordia loucamente, como ele, as cegas. Os esforços do
Arqueiro só resultaram em um corte profundo no peitoral da Criatura. Afastou-se
na única chance que teve e tentou recuperar seu arco, mas “Ela” fora mais
rápida. Sentiu uma dor aguda no ombro, até o cotovelo, esquerdo. Caiu, seu
braço dilacerado jorrava sangue, agora era inútil. A Criatura se distraíra com
o sangue em suas garras e deu tempo para que o Arqueiro percebesse, em sua poça
de sangue, a falta de suas armas. Procurou seu arco, de joelhos. O encontrou,
mas estava tão inútil quanto seu braço. “A adaga!”, procurou somente com os
olhos, a dor não deixava que se movesse. “Achei! Só tenh... AH! Meu braço.
Esqueça-o! Por um momento”, conseguiu rastejar alguns metros “Só mais um
pouco... Consegui!”. Mas a Criatura notou seus movimentos. Colocou-se ereto nas
patas traseiras: “Estou com sede. Estou com sede do SEU sangue, Humano”. A sensação da consciência da Criatura entrando
na sua causou uma nova onda de dor em seu braço. E quando a dor dimunuira
conseguiu ficar em pé, cambaleante, com a adaga em sua mão direita. Ao ver que
o Humano se levantou se atirou contra o pescoço dele para que se saciasse com o
sangue dele. Viu alguma coisa na mão do Humano, mas não ligou. Só queria mais
daquele sangue. A Criatura era mais pesada do que o Arqueiro pensava. A adaga
atingira seu alvo. O coração. Ou pelo menos onde ele achava que era, comparando
com a cena da reconstituição da Criatura. Sentiu nojo, enquanto o sangue
escorria “dela” para ele. Nojo e medo. Mas seu medo, ou pelo menos parte dele,
sumira quando saiu de baixo da Criatura. Observou-a queimar e se transformar em
restos mortais de novo, esperando o pior. “Sem fumaça verde, ótimo. O demônio
morreu. Vamos ver os estragos.”. Disse limpando o sangue “Daquilo” do rosto, mas
estava respingado por todo seu corpo. Sentiu o braço, dessa vez pior. Gritou.
Caiu. Contorceu-se. Levantou-se e se pôs a caminhar, em direção a sua aldeia. Mas
algo o fez cair novamente. O sangue daquele Demônio-Negro que respingara nele,
começou a queimar corroer sua armadura, pele, osso. Sentiu algo passar por suas
veias, como vapor passa por um cano. Queimando. Mas sentiu mais ainda quando
viu o veneno sair pelas veias dilaceradas do braço esquerdo. Saiu do corte uma
substância verde. Gritou de dor e agonia.
Olhou de
relance para a adaga. Resolveu não pensar duas vezes. Com um único golpe, sorte
que sua adaga era bem amolada, arrancou o braço. Gritou. Gemeu. O sangue
jorrava, mas não só sangue parte da substância também, do que sobrara do seu
ombro. Uma poça de sangue contaminado se formou. “Uma poça do meu sangue!”. Só que de nada adiantou. O
veneno já se espalhara por todo seu corpo. E pelo seu coração. Morreu. O
encontraram dois dias após a luta. Ajoelhado, com o olhar vidrado no braço
caído, decepado. A poucos metros de um pequeno monte de areia verde. “Mas o que
matou esse homem? O que era aquilo?”. Pesou o caçador que o encontrara. “Que
fumaça é essa? Vem da areia! Pelos Deuses...mas o qu...?!”